Como é a Semana Santa na Espanha

A Semana Santa é um dos períodos mais intensos do calendário religioso espanhol. Durante uma semana, cidades de todo o país param, as ruas se enchem de procissões e a rotina muda completamente. Para quem vem de fora, pode ser uma das experiências culturais mais marcantes de uma viagem à Espanha. Para quem já vive aqui, é uma semana com cara própria que chega todo ano com a mesma força.

A celebração tem raízes religiosas profundas. Marca os últimos dias de vida de Jesus Cristo, desde a entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos até a ressurreição no Domingo de Páscoa. Na Espanha, eles nem celebram muito a Páscoa, mas sim Semana Santa inteira, e é assim que os espanhóis se referem a esse período. Mas mesmo para quem não tem ligação com a religião católica, é um evento cultural e visual de grande impacto.

A Semana Santa começa no Domingo de Ramos e termina no Domingo de Páscoa, totalizando oito dias. Durante esse período, as irmandades, que são associações religiosas com séculos de história, organizam procissões pelas ruas das cidades. Cada uma tem as suas próprias imagens, os seus trajes e o seu percurso. Em cidades como Sevilha, chegam a desfilar dezenas de irmandades ao longo de toda a semana.

O que acontece nas procissões

O ritmo é lento, deliberadamente lento, e a atmosfera é solene. Quem vai esperando animação vai encontrar silêncio, música de marcha, cheiro de incenso e uma cadência que pode durar horas.

O cortejo é formado pelos nazarenos, membros da irmandade vestidos com túnicas e capuzes, que caminham em fila carregando velas. Atrás deles vêm os pasos, estruturas enormes com imagens religiosas carregadas nos ombros por dezenas de pessoas ao mesmo tempo. O peso pode chegar a várias toneladas, e os portadores trabalham em sincronia sem ver para onde vão.

A música que acompanha as procissões são as marchas procesionais, um gênero próprio da Semana Santa tocado por bandas de instrumentos de sopro e percussão. O ritmo é lento e solene, pensado para acompanhar o passo do cortejo. Em algumas procissões há momentos de silêncio absoluto que contrastam com o estrondo dos tambores. Em certas cidades, como Sevilha, é comum ouvir também as saetas, cantos flamencos improvisados lançados dos balcões enquanto os pasos passam pela rua.

Os capuzes que parecem assustadores mas não são

Quem vê uma procissão da Semana Santa pela primeira vez sem saber o que é pode se assustar com os nazarenos. Os capuzes pontiagudos que cobrem o rosto inteiro, chamados de capirotes, têm uma aparência que muitos associam àquela organização composta de três letras k, americana. Mas a história é o outra: o uso desses capuzes na Espanha é anterior ao uso daqueles outros lá em séculos.

A origem remonta à Idade Média, quando os penitentes cobriam o rosto como sinal de humildade, para que ninguém reconhecesse quem estava fazendo penitência pública. Os grupos supremacistas americanos adotaram uma estética similar no século XIX, mas sem nenhuma ligação com a tradição espanhola.

Grupo de nazarenos com túnicas brancas e capuzes pontiagudos carregando velas grandes durante uma procissão de Semana Santa.
Frank KovalchekCC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Onde ver a Semana Santa na Espanha?

A Semana Santa acontece em praticamente todos os municípios do país, mas há cidades que se destacam pelo tamanho, pela tradição e pelo valor artístico das suas procissões.


Sevilha

Semana santa de Sevilla
Carlos9933, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Sevilha é a referência mais importante de Semana Santa na Espanha. Dezenas de irmandades percorrem o centro histórico durante a semana inteira. A quantidade de cera de vela derramada nas ruas é tanta que há placas avisando sobre o chão escorregadio.


Málaga

Semana santa de Málaga
GregorBF, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Málaga diferencia-se pelas estruturas enormes carregadas nos ombros por centenas de devotos, algumas das maiores do país. O momento de maior impacto é o desfile da Legião Espanhola, que entoa hinos militares na Quinta-feira Santa.


Valladolid

Semana Santa de Valladolid
Nicolás Pérez, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Valladolid leva às ruas um museu ao ar livre. As esculturas que saem em procissão são cedidas pelo Museu Nacional de Escultura da cidade, com obras de Gregório Fernández e Juan de Juni, consideradas entre as mais importantes da escultura policromada europeia.


Zamora

Semana Santa de Zamora
Fanny Vega, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Zamora tem uma das Semanas Santas mais antigas do país, com registros desde 1273. O mais interessante aí é o contraste entre o silêncio absoluto das procissões noturnas e a música das diurnas. O Juramento do Silêncio, na noite de Quarta-feira Santa, é um dos momentos mais marcantes.


Cuenca

Semana Santa de Cuenca
IMG_5896” by JLES, CC BY-NC-SA 2.0

Cuenca tem dois eventos de Interesse Turístico Internacional na mesma semana: a Semana Santa e a Semana de Música Religiosa. O momento mais famoso é a procissão das Turbas, na madrugada da Sexta-feira Santa, onde um grupo de participantes com o rosto descoberto corre pelas ruas estreitas da cidade velha tocando tambores e clarins de forma caótica, representando as multidões que zombavam de Jesus a caminho do calvário.


Zaragoza

Semana Santa de Zaragoza
Nicolás Pérez, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Zaragoza tem mais de 700 anos de história, 53 procissões e mais de 16.000 membros de irmandades. O que a distingue é o som, com mais de 4.000 instrumentos, entre tambores, bombos, tímpanos, cornetas e matracas, que acompanham as procissões por toda a cidade. O ponto alto é a Procissão do Santo Enterro, na Sexta-feira Santa, onde todas as irmandades da cidade desfilam juntas num único cortejo.

A Semana Santa não se limita a essas cidades. Em praticamente qualquer pueblo ou cidade onde você estiver durante essa semana, vai encontrar alguma procissão. Hellín, em Albacete, tem uma tamborada onde mais de 20.000 pessoas tocam tambor durante dias inteiros. Lorca, em Múrcia, é famosa pelos desfiles bíblicos com cavalos e bigas romanas. Cáceres percorre o centro histórico medieval só com a luz de tochas. San Vicente de la Sonsierra, na Rioja, mantém vivo o único ritual de flagelação penitencial que sobreviveu na Espanha. A lista não tem fim.

Vale a pena ver a Semana Santa na Espanha?

A Semana Santa é uma daquelas experiências que é difícil de entender sem ver ao vivo. O ritmo lento, o silêncio, a música e a atmosfera das ruas transformadas fazem parte de algo que existe há séculos e que a Espanha leva muito a sério.

Um detalhe prático para quem vai visitar: durante as procissões, os percursos são bloqueados para pedestres, e quem estiver do lado errado da rua não consegue atravessar. Em cidades com muitas procissões simultâneas, como Madrid, é possível ficar parado por um bom tempo sem conseguir chegar ao destino. Vale pesquisar os percursos com antecedência se você tiver reservas ou transporte para apanhar.

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