Muita gente mora ou viaja para Madrid sem saber que a região produz vinho. Produz, tem denominação de origem própria, e a menos de uma hora do centro dá para visitar uma bodega familiar que guarda uma caverna do século XVII embaixo do chão.
A gente foi conhecer a Bodega Pedro García, em Colmenar de Oreja. Aqui contamos como é a visita, o que entra na degustação e o que você precisa saber antes de reservar.
A visita à Bodega Pedro García em Colmenar de Oreja
A visita guiada da Bodegas Pedro García dura cerca de uma hora e termina vários metros abaixo do nível da rua, dentro de uma caverna do século XVII.
O começo é na superfície. A Pedro García é uma bodega familiar que funciona desde 1931, e quem conduz a visita é o Francisco, enólogo da casa. Ele explica com calma e deixa a gente perguntar o que quiser.
A primeira parada é a sala de fermentação, o lugar exato onde o suco da uva se transforma em vinho. Francisco detalha os processos e os diferentes tipos de vinhos produzidos ali. Não vamos prolongar as explicações técnicas, mas na prática é um momento muito didático para entender a produção sem se perder em termos complicados.
Seguimos para o espaço onde o vinho ganha tempo. De um lado ficam os barris de carvalho e do outro as garrafas. Se você pensava que envelhecer um vinho era apenas guardar a garrafa na prateleira, vai descobrir ali que existe um passo fundamental antes.
O envelhecimento ocorre em duas fases distintas e o oxigênio dita as regras do processo. Primeiro o vinho vai para o barril. Como a madeira é porosa, ela permite a entrada de uma pequena quantidade de ar. Isso suaviza os taninos, além de adicionar aromas da madeira ao vinho. Na etapa seguinte o vinho passa para a garrafa, um ambiente totalmente fechado onde a bebida se integra de forma lenta e isolada.
E é desse tempo que saem as palavras que você vê em qualquer prateleira de supermercado na Espanha, principalmente falando de vinho tinto. Um crianza passou pelo menos 24 meses envelhecendo, sendo 6 deles em barril. Um reserva, 36 meses, com 12 em barril. Um gran reserva, 60 meses, com 18 em barril... e por aí vai.
A descida para a caverna vem depois. O ar muda antes da paisagem, fica fresco sem chegar a ser frio, e lá embaixo é cheio de ânforas gigantes encostadas nas paredes. São potes de argila do tamanho de uma pessoa, onde o vinho fermentava e descansava antes de existir aço inox ou controle de temperatura.
Por curiosidade, a caverna foi escavada à mão no subsolo de pedra calcária. Esse tipo específico de rocha, extraído nas pedreiras da região, é o mesmo material utilizado na construção da fonte de Cibeles e do Palácio de Oriente em Madrid.
Ter uma estrutura subterrânea assim não era uma exclusividade dessa bodega. A vila de Colmenar chegou a ter cerca de 150 cavernas similares, pois cada família cavava o próprio espaço sob suas casas para proteger a produção pessoal de vinho.
Hoje essa caverna guarda os espumantes da bodega, feitos pelo mesmo método do champagne, com a segunda fermentação dentro da garrafa. Estarem ali embaixo não é decoração. A temperatura da caverna se mantém estável o ano inteiro, o que faz a fermentação acontecer devagar. Quanto mais devagar, mais fina fica a bolha.




A degustação dos vinhos
Eles preparam a degustação na mesma sala onde os vinhos envelhecem, entre os barris de carvalho e as garrafas. São três vinhos, servidos com um aperitivo de queijo, embutidos e uns biscoitinhos.
Começa por um branco semidoce. É agradável e fácil de beber, ainda que vinho doce não seja o nosso estilo.
O segundo é um branco seco, e foi o que a gente mais gostou. Tem acidez equilibrada, aquele sabor de maçã verde, e é fresco o bastante para beber fácil.
O terceiro é o tinto, mais encorpado e com bastante tanino. Foi o que menos nos agradou, mas isso é gosto pessoal. Quem prefere tinto com estrutura provavelmente vai discordar da gente.
De modo geral, são vinhos bons e fáceis de beber, sem grandes pretensões. Para o que a experiência custa, entregam bem.
A degustação em si dura uns 20 ou 30 minutos, mas a gente ficou um tempão ali. Sentamos, bebemos, conversamos, e só saímos porque o grupo seguinte já estava chegando.
Na saída dá para comprar os vinhos ali mesmo. Levamos o espumante brut nature que descansa nas cavernas, e foi a melhor compra do dia. Acidez no ponto certo, bolha bem fina de verdade, e custou por volta de €9. Na mesma faixa de preço, achamos melhor que as marcas mais consolidadas de cava de supermercado.






O que é a DO Vinos de Madrid
A DO Vinos de Madrid existe desde 1990 e é o selo que reúne os vinhos produzidos dentro da própria comunidade. Muita gente nem sabe que Madrid faz vinho.
São quatro subzonas, e Colmenar de Oreja fica em Arganda, a maior delas. Por ali os brancos saem sobretudo da malvar, uma uva local que dá vinhos frescos e frutados, e os tintos vêm principalmente da tempranillo.
A denominação é pequena porque a cidade foi crescendo por cima das vinhas ao longo do século XX. O lado bom disso é o preço. São vinhos pouco conhecidos fora da região, e dá para achar garrafas honestas por pouco em qualquer supermercado de Madrid.
Informações práticas para visitar a bodega
Como chegar em Colmenar de Oreja desde Madrid
A bodega fica na Calle Soledad, 10, no centro histórico de Colmenar de Oreja, a cerca de 50 km ao sudeste de Madrid.
De carro são uns 50 minutos. É a opção mais prática, principalmente se você quiser emendar com outros povoados da região no mesmo dia.
Sem carro também dá. A linha de ônibus interurbano 337 sai do sudeste de Madrid, com conexão de metro em Pavones (linha 9), e leva cerca de uma hora e dez até a estação de ônibus de Colmenar de Oreja. Os ônibus saem mais ou menos de hora em hora e o bilhete simples custa €3, comprado a bordo. De lá até a bodega é uma caminhada curta, já que tudo fica no centro da vila.

Como reservar a visita e quanto custa
Telefone
+34 918 943 278
Contato
Também dá para reservar por plataformas de enoturismo como Aladinia, Guía Repsol, Smartbox e Groupon, que às vezes têm pacotes com garrafa incluída.
São dois formatos de visita:
- Standard. Visita guiada de 45 minutos pelas instalações, com degustação de dois vinhos jovens. €10 por pessoa.
- Gourmet. Visita de uma hora que inclui o percurso pelas cavernas centenárias, degustação de três vinhos e aperitivo da região. €15 por pessoa.
Se você vai por causa das cavernas, precisa ser a Gourmet. A standard não desce.
Vale mencionar que o acesso à bodega é adaptado e apto para quem tenha dificuldade de mobilidade e que a degustação é só para maiores de 18 anos.
Vale a pena visitar?
Valeu muito a pena e gostamos bastante. A visita tem o selo de recomendação do MiraEspanha.
O que fica na memória são as cavernas. É o que separa essa bodega de outras visitas de enoturismo, e é o motivo para escolher a Gourmet em vez da standard.
Colmenar de Oreja tem o centro histórico inteiro declarado Bem de Interesse Cultural, com a Plaza Mayor porticada e o Museu Ulpiano Checa, dedicado ao pintor nascido na vila. Dá para ver que a cidade teve um passado bastante rico, os edifícios na zona histórica são enormes e a igreja parece uma fortaleza.
E... Já que está lá aproveita para comer bem, gastronomia local também é um destaque. Na região da Plaza Mayor, os restaurantes servem guisados, tapas e carnes à brasa acompanhados de vinhos locais, tudo feito com ingredientes da região. É uma delícia!
Além disso, a dez minutos de carro fica Chinchón, famosa pela sua Plaza Mayor de varandas de madeira verdes, que já serviu de cenário para vários filmes. Dá para juntar as duas vilas e a bodega no mesmo dia sem correria.

Perguntas frequentes
É permitida só para maiores de 18 anos.
Sim. Apesar de ficar vários metros abaixo do nível da rua, a caverna foi adaptada e recebe visitantes com mobilidade reduzida.
A standard custa €10 por pessoa. A gourmet, que inclui a caverna, custa €15.
Sim. A visita só acontece com reserva prévia.
A standard não desce à caverna e inclui degustação de dois vinhos jovens. A gourmet inclui o percurso pelas cavernas centenárias e degustação de três vinhos, com aperitivo.
A linha de ônibus interurbano 337 liga Madrid a Colmenar de Oreja, com saída na zona do metrô Pavones e viagem de cerca de uma hora e dez.











